A vida é feita de grandes recomeços.
Grandes recomeços assinalando pequenos finais.
A vida é feita de grandes recomeços; eis meu mantra... eis meu mantra amanhecendo...
Quando soube que havias retornado não sorri por meu amor ter retornado... sorri porque havias retornado para alguém inteiramente novo.
É triste, mas sinto que o blog permanecerá em silêncio por algum tempo. Talvez para sempre. Mas há outro -- talvez não vingue, mas de qualquer forma, lá vai o endereço.
Como já disse, talvez não vingue. Mas talvez vingue. Sei lá. Sou inconstante. E humano. Dentre tantas outras coisas, sou humano. Mais do que nunca. Para sempre. Amém.
"And you're questioning the sciences
And questioning religion
You're looking like an idiot
And you no longer care.
And you want to bridge the schism,
A built-in mechanism to protect you.
And you're looking for salvation
And you're looking for deliverance
You're looking like an idiot
And you no longer care."
( R.E.M. -- "Hope", canção que não larga dos fundos da minha cabeça há algumas semanas. )
O silêncio.
Escuso-me a rompê-lo. Mas poderia -- presumo -- apor-lhe algumas notas. Proferir um pronunciamento em seu nome. A que veio ? Por quê ?
Não, não, é muito mais simples do que isso.
Era preciso apenas acentuar a passagem. Imaginei que só poderia fazê-lo valendo-me de extremos. E a verbosidade não me pareceu muito tentadora. Portanto, optei pelo silêncio. Que não é findo. Mas demanda um parêntese. Uma inscrição no bloco de concreto.
Comentário do silêncio.
A passagem pedia um grifo -- por que não acomodá-la ? Tamanha é nossa dívida para com a passagem, é o mínimo que se pode fazer. Silenciar quando ela assim o pede. Não ponho em questão suas intenções -- mas a passagem é conhecida por seu sestro de solenizar as coisas. Mesmo a felicidade. Ela precisa ser solenizada -- caso contrário, é banal; inda mais transitória que o normal, o recomendado. Desconfio que a passagem tenha pedido silêncio pela felicidade.
Pela juventude coroada por suas descobertas. ( É curioso -- mas vejo-me surpreendemente atinado com a cadência da juventude. Vejo-a reclinada sob a sombra de muitas de minhas dúvidas e considerações e atos. Claro, trata-se de uma outra juventude. Mas ainda assim, de uma juventude. Remocei um pouco -- ou pelo menos o bastante para perceber que as coisas podem ser feitas. Incluindo o silêncio. )
O silêncio que sublinha a passagem.
Talvez agora suma-se no horizonte -- porque a passagem passa, é covardia viver nas trincheiras da transição. Agora faz-se necessária a admissão de que me tornei aquilo que julgava ser. "Vem a ser o que tu és". Quem disse isso mesmo ? Um desses encantadores pré-socráticos, suponho.
Brother can't even speak
He's got a tongue and two legs to walk on
He can leave Brother is old and grey
Brother is old and grey
Brother is old and grey
And he's only... he's only seventeen. ( Cat Power -- "The Coat Is Always On" )
O mundo é por mim, não é mesmo ?
Pois sim. Vivemos o sono de beleza de Deus.
E eu posso... fazer alguma coisa.
Então... que achem graça do meu cansaço... que achem graça. O mundo é por mim. Depois dessa aspirina. Depois dessa aspirina, o mundo é por mim. Vejo veredas abertas e flores por todos os lados e eu longe de toda esta bagunça. Vejo grandes coisas por mim, vejo mesmo. Você não sabe ? Isto aqui sou eu depois do dilúvio. Qualquer coisa mudou.
Isto aqui sou eu depois do dilúvio.
Ele veio, doce e definitivo.
Eu já sabia que estava preso.
Mas agora sei também que este que está preso merece ser libertado. Que vale a pena pleiteá-lo. Na verdade, ele tem todas as respostas.
Ele quer um lar. Ele quer escrever. Ele quer saldar suas dívidas com o mundo. Ele quer poder não ficar falando o tempo inteiro. Ele quer os dias de vinho e rosas.
Perfeita ocasião para se reconhecer -- eu nunca fui feliz aqui. Nunca tive um momento de paz aqui. Estou francamente impressionado com a quantidade de tapas que eu já levei. E não quero mais pensar em culpados, isto aqui não é Polícia e Ladrão no pátio do colégio, não somos mais crianças ( e se somos... podemos fingir que não um pouco ? ). É hora de ver o que pode ser feito a respeito.
"He washes away thought, speech, mood, desire, whole selves, entire lifetimes, again and again he returns, becoming always cleaner, freer, less."
( Christopher Isherwood -- trecho de "A Single Man" )
I dunno... seems to me if you ain't caught one way, you're caught another...
Sentara-se ao balcão, onde a rua ainda podia se insinuar no canto dos olhos, embrulhada num pálido início de tarde, entregue à cidade por parentes remotos, porém admiravelmente cônscios de seus deveres de sangue. O mundo inteiro desfazia o laço, abria a caixa e descobria meias -- o rapaz, a moça do caixa, o imbecil à esquerda que acabara de derramar uma xícara inteira de café quente sobre as calças. Acendeu outro cigarro. Ci-gar-ro. O único "kigô" aceito por qualquer estação. Precisava escrever um haikai sobre cigarros, um dia. Mas agora não. Ocultar a tristeza daquela tarde de meias pálidas tomava-lhe todas as forças.
Pior era imaginar a vida batendo à porta de seu pequeno apartamento depois, pedindo-lhe favores, argumentando --
"Mas eu sempre gostei tanto de você. Está lembrado daquelas meias que te dei ... ?"
"Não".
A única coisa que a vida lhe pedia neste instante era uma certa fúria. Sequiosos de algo melhor, estamos todos, caro confrade, no entanto... no entanto... ele segue bebericando seu refrigerante. Era laranja, borbulhava e parecia estúpido. Era anti-vid'autêntica. Breve fixava o rótulo a tudo que via em derredor. A caixa, a tarde, a rua, o imbecil que golpeava as calças molhadas de café com um punhado de guardanapos. Teve ganas de levantar-se e berrar em sua cara -- "J´accuse ! És um militante anti-vid´autêntica e mereces cada xícara de café quente que é derramada sobre vossa virilha !". Mas conteve-se. Contrapôs-se à esta fantasia a possibilidade de alguém um dia levantar-se num boteco e berrar em sua cara "Você é anti-vid'autêntica !". Como retornaria ? Se tudo delinqüía contra sua humanidade, ele também -- deduzia -- delinqüia contra a humanidade alheia. Estar ali, com seu refrigerante, seu cigarro, o Camus aberto displicentemente sobre o balcão, mosca pousada sobre o vocábulo "coletivo" -- estar ali era truncar o estar ali do imbecil das calças molhadas.
"Mais guardanapos ?" -- perguntou a garçonete.
"Úi... sim... é, obrigado..."
"Será que ele vai pedir outro café ?", indagou o rapaz, de si para si.
Segundos depois, o imbecil pede outro café.
"É a pedra !", pensou o rapaz, "é a pedra de Sísifo ! O imbecil derruba a xícara, pede outra, derruba outra, e continuará pedindo e derrubando xícaras de café até o dia de sua morte. Será que é feliz ? Imagino que se conseguir uma brecha na agenda para ir à praia de quando em vez, sujeitar-se ao mar, ao Sol e conscientizar-se da absoluta des-razão da existência humana, entre cafés, ele alcançará a verdadeira felicidade. A felicidade plena".
Acendeu outro cigarro e maldisse seu horror à praia e sol e mar.
"Onde já se viu ? Um Homem Absurdo não gostar de sol. Impostor".
Se não era um Homem Absurdo, então, o que diabos era ? Após alguns segundos visitando opções, concluiu que estava apenas a algumas palavras de ser qualquer coisa e criar qualquer ser. "Queres um Deus -- inventa-o ! Se hoje sou um aspirante a haicaísta, tanto melhor ! E por que não um aspirante a haicaísta Absurdo ? Oh, a força das palavras !".
Naquele breve instante, conheceu todas as possibilidades de um só golpe -- e como figurasse dentre elas a possibilidade de nenhuma delas ser possível, entristeceu-se. Tocou a genuína angst. Mas antes que pudesse concluir que a vid'autêntica só era possivel através da angústia ( por uma série de movimento dialéticos que deixariam até mesmo Hegel nauseabundo ), ou algo igualmente perigoso, acometeu-lhe um Tédio que súbito des-caracterizou o boteco e o rapaz se sentiu na obrigação de dar o fora dali e ver se o mesmo tinha acontecido com o resto do Universo.
Não, não, tinha sido apenas um susto. O mundo permanecia caracterizado.
Ainda bem.
***
Desquito-me da Filosofia no final deste período, se tudo correr bem. Mas amigavelmente, porque ainda pretendo regressar um dia, com a mente desanuviada, tentar outra vez. Mas agora não.
Incrível como a felicidade pode abrir os seus olhos para tudo o que há de errado na sua vida. Como uma nota muito alta que você alcança e tenta manter por quanto tempo for possível.
***
Este template está anti-vid'autêntica. Alguém aí quer fazer um novo para mim, free of charge ? Prometo dar um par de meias brancas no Natal para quem me fizer esse favor. ( Pense frames. Pense uma fonte menor e mais discreta. Pense foto de David Hemmings em "Blow-Up". )
Quando indagado acerca de sua experiência profissional pela gerente do Letras e Expressões, responda:
" -- Não tenho nenhuma. Mas sou obssesivo-compulsivo, isso deve contar para alguma coisa."
***
Vida estúpida, essa na qual não podemos nos valer de um barquinho de papel para chegarmos ao outro lado. ( O outro lado da vida estúpida, digo ).
"And maybe when we wake up in the morning
Maybe when the darkness starts to fade
Maybe in a paper boat we'll both just float away..."
( Belle and Sebastian -- "Paper Boat" )
Isto é uma folha de fichário ( da turma do Charlie Brown, aliás ) repleta de corações desenhados. Isto é uma 3x4 nova na minha carteira. Isto é uma caixa de fósforos surrupiada de um hotel na orla de Copa. Isto é por estar realmente feliz pela primeira vez em um bom tempo.
I may not always love you
But long as there are stars above you
You never need to doubt it
I'll make you so sure about it --
God only knows what I'd be without you.